Contos de Nasrudin : christian rocha : uma página pessoal

Contos de Nasrudin

Há quem diga que Mullá Nasrudin nasceu e viveu numa pequena cidade da Turquia por volta do séc. XIII. Há quem diga que não é nem um pouco importante saber se isso é verdade ou não. Tal imprecisão não é casual, pois a intenção é justamente a de proporcionar um personagem à margem do tempo e destituído de uma personalidade histórica. Para o sufismo, mais importante que o Nasrudin histórico é o seu ensinamento, que permanece através dos tempos.

Grande prova de sua atualidade e vitalidade é a sua presença em quase toda a literatura mundial. Ultimamente, coletâneas de contos de Mullá Nasrudin têm sido publicadas em vários paí-ses ocidentais, além de formarem parte integrante da tradição escrita e oral da maioria dos países orientais.

A "História de Nasrudin" que aparece já no séc. XIII como um apêndice à primeira compilação de seus contos de que se tem noticia, alude a algumas das razões de sua existência. Es-ses contos dão forma a um sistema completo de pensamento que age em níveis de profundidade tão diversos que não pode ser totalmente extinto. Além disso, o humor tem a característica de difundir-se e deslizar através dos padrões mentais e sociais impostos à humanidade pelo costume e pela autoridade.

Pode ser verdade que os relatos devem sua sobrevivência a seu perene atrativo humorístico, mas para os sufis este aspecto é secundário. A verdadeira intenção com a qual foram desenhados é outra: a de proporcionar, no contexto de uma situação de ensinamento, uma base para a difusão da atitude sufi durante a vida.

Entretanto, os sufis concordam com os que não seguem nenhum caminho místico para ler os contos de Nasrudin e permanecem fazendo o que vem sendo feito através dos séculos: desfrutando-os!

Aprendendo a conversar com Deus
Acreditando no sonhos
Quando descobrir conto
O Mestre-Nadador
Papagaio e o Corvo
A Farmácia cósmica de Nasrudin
Nasrudin visita a Índia
O que poderia tornar-se o quê
A Mulher Perfeita
Estou fazendo algo
Não importa fingir-se de tolo
Como Nasrudin criou a verdade

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Aprendendo a conversar com Deus

Nasrudin, certa vez, estava sem um burrico que o ajudasse em seus afazeres. Desesperado, sem ter meios de encontrar um começou a orar, pedindo a Deus que lhe enviasse um burrico. Rezou por algum tempo e, certo dia, ao andar por uma estrada, depar ou-se com um homem montado num burrico e atrás estava um outro burrico mais jovem. Nasrudin aproximou-se do homem e este lhe disse: - Mas que vergonha, eu estou trazendo uum burrico de tão longe, estamos todos esgotados, e aqui está este homem descansado, sem fazer nada! E ameaçando-o com uma espada, completou: - Vamos! Coloque o burrico nas suas costas e venha comigo até a próxima cidade! Nasrudin, com medo não disse nada, simplesmente colocou o burrico em suas costas e seguiu o homem. Andaram por várias horas e Nasrudin estava exausto de tanto peso. Ao entardecer, chegaram na cidade mais próxima e o homem simplesmente fez Nasrudin descer o burrico das suas costas e seguiu adiante, sem sequer agradecer. Nasrudin ergueu os seus olhos para o céu e disse: - Está bem, Deus. Aprendi a minha liçãoo. Na próxima vez serei mais específico...

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Acreditando no sonhos

"Nasrudin vivia numa cidade pacata e muito pequena. Um belo dia, Nasrudin foi passear e estava com um copo de leite nas mãos. Andou, andou e resolveu parar na beira de um rio que existia na cidade. Olhou para o rio e jogou o leite dentro dele. Pegou um galho de árvore e começou a mexer no rio com movimentos circulares, sem parar. O Prefeito da cidade, que estava fazendo uma ronda, viu aquilo e pensou que Nasrudin estivesse ficando louco. Então, resolveu se aproximar para averiguar melhor o fato. -- Nasrudin, o que você está fazendo? -- Estou fazendo iogurte! -- Você está maluco! Disse o Prefeito. Mesmo que você jogue e litros de leite seria impossível fazer iogurte!!! O rio é muito grande. Nasrudin então, olhou bem nos olhos do Prefeito e disse: -- Você já pensou se fosse possível? "

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Quando descobrir conto

Nasrudin postou-se na praça do mercado e dirigiu-se a multidão: "Ó povo deste lugar ! Querem conhecimento sem dificuldade, verdade sem falsidade, realização sem esforço, progresso sem sacrifício ?" Logo juntou-se um grande número de pessoas com todo mundo gritando: "Queremos ! Queremos !" "Era só para saber", dise o Mullá. "Podem confiar em mim, contarei tudo a respeito caso algum dia descubra algo assim".

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O Mestre-Nadador

Era uma vez um mestre-nadador. Numa tabuleta acima de sua porta podia-se ler: "MULLA NASRUDIN MESTRE-NADADOR" "Salvamentos – Natação em todos os estilos – Água doce ou salgada" Um dia, alguém bateu à porta. Nasrudin abriu e convidou o desconhecido a entrar. Feitas as apresentações de praxe, perguntou-lhe o motivo da visita. – Veja – respondeu o visitante –, eu amo a natação. Gostaria de transformar-me num bom nadador, e não apenas de saber boiar. Tenho, mesmo, alguma experiência de correntes e águas calmas. Fiz até caça submarina. Mas sei que me falta alguma coisa. E, se me permitir, gostaria de tomar umas aulas com o senhor, para ser mais hábil. Nasrudin expôs resumidamente seu programa de aulas. Depois o visitante o interrogou sobre seus preços. – Devo adverti-lo – respondeu Nasrudin – que meu método comporta etapas sucessivas: O primeiro estágio lhe custará vinte dólares por aula (naquela época o dólar já era uma moeda forte) ; o segundo lhe custará quinze dólares por aula; o terceiro, dez dólares; e finalmente o último estágio, quase grátis, não lhe custará mais do que cinco dólares! – Muito bem – respondeu o visitante, dirigindo-se alegremente para a porta. – Agradeço-lhe imensamente. Voltarei para o último estágio, ele me convém perfeitamente!

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Papagaio e o Corvo

Numa linda manhã de domingo, Mulla Nasrudin passeava no mercado. Qual não foi sua surpresa ao deparar com seu amigo Yussuf: este segurava uma gaiola com um pequeno papagaio, cujo preço de venda era três peças de ouro! Escandalizado, o Mulla gritou: – Yussuf, como se atreve a pedir tal soma por um mísero papagaio? Yussuf encarou Nasrudin severamente e disse: – Fique sabendo, Mulla, que eu peço um preço justo. Este não é um pássaro qualquer: ele fala! Sem saber o que responder, Mulla seguiu seu caminho. Uma hora mais tarde, grande foi a surpresa de Yussuf quando viu seu amigo Mulla instalar-se ao seu lado, trazendo uma gaiola com um velho corvo. Pregado à gaiola, um letreiro anunciava o preço: doze peças de ouro! – Ladrão! Escroque! – gritou Yussuf, vermelho de raiva. – Você não tem vergonha de pedir um preço desses por um velho corvo depenado? – Não – respondeu calmamente Mulla Nasrudin. – É verdade que é um corvo velho, é verdade que ele não fala, mas este não é um pássaro qualquer: ele pensa!

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A Farmácia cósmica de Nasrudin

Nasrudin estava desempregado. Perguntou, então, a alguns amigos que tipo de profissão deveria seguir. "Bem, Nasrudin," disseram, "você é muito capaz e conhece bastante as propriedades medicinais das ervas. Poderia abrir uma farmácia." Nasrudin foi para casa, pensou e disse para si mesmo: "sim, acho que é uma boa idéia. Acho que sou capaz de fazer isso." Naturalmente, sendo Nasrudin, nessa ocasião em particular passava por um de seus momentos de desejar ser proeminente e importante. Assim, pensou: "Não abrirei apenas uma loja de ervas ou uma farmácia que lide com ervas; abrirei algo grandioso e que cause um forte impacto". Comprou uma loja, instalou prateleiras e armários e quando chegou a hora de pintar a fachada, montou um andaime, cobriu-o com chapas e trabalhou atrás delas. Não deixou que ninguém visse o nome que daria à farmácia ou como a fachada estava sendo pintada. Após vários dias, distribuiu folhetos que diziam: "Grande inauguração, amanhã às nove horas". Todos de sua aldeia e das aldeias vizinhas vieram e ficaram esperando em frente à nova loja. Às nove horas, Nasrudin apareceu, retirou a placa da frente e lá estava um enorme cartaz onde se lia: "Farmácia Cósmica e Galáctica de Nasrudin" e abaixo estava escrito: "Influenciada e harmonizada com influências planetárias". Muita gente ficou impressionada e ele fez um ótimo negócio naquele dia. Ao anoitecer, um professor local aproximou-se de Nasrudin e lhe disse: "Francamente, essas alegações que você faz são um pouco duvidosas". "Não, não", respondeu Nasrudin, "cada alegação que faço sobre influência planetária é absolutamente correta. Quando o sol se levanta, abro a farmácia e quando o sol se põe, eu fecho." Portanto, pode haver diferentes interpretações sobre quanto a influência planetária afeta alguém e sobre o quanto dessas influências alguém recebe ou usa.

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Nasrudin visita a Índia


O célebre e contraditório personagem sufi Mulla Nasrudin visitou a Índia. Chegou a Calcutá e começou a passear por uma de suas movimentadas ruas. De repente viu um homem que estava vendendo o que Nasrudin acreditou que eram doces, ainda que na realidade fossem chiles apimentados. Nasrudin era muito guloso e comprou uma grande quantidade dos supostos doces, dispondo-se a dar-se um grande banquete. Estava muito contente, se sentou em um parque e começou a comer chiles a dentadas. Logo que mordeu o primeiro dos chiles sentiu fogo no paladar. Eram tão apimentados aqueles "doces" que ficou com a ponta do nariz vermelha e começou a soltar lágrimas até os pés. Não obstante, Nasrudin continuava levando os chiles à boca sem parar. Espirrava, chorava, fazia caretas de mal estar, mas seguia devorando os chiles. Assombrado, um passante se aproximou e disse-lhe: - Amigo, não sabe que os chiles só se ccomem em pequenas quantidades? Quase sem poder falar, Nasrudin comentou: - Bom homem, creia-me, eu pensava que eestava comprando doces. Mas Nasrudin seguia comendo chiles. O passante disse: - Bom, está bem, mas agora já sabes quee não são doces. Por que segues comendo-os? Entre tosses e soluços, Nasrudin disse: - Já que investi neles meu dinheiro, nãão vou jogá-los fora.
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O que poderia tornar-se o quê

Hakim entrou num restaurante e pediu ovos cozidos. O velhaco dono apresentou-lhe uma conta de cinco moedas de prata. Hakim protestou que aquela conta era um absurdo. -"Se eu tivesse guardado esses ovos para as galinhas chocarem, teriam se transformado em frangos", disse o dono do restaurante, "e sua prole, e a prole de sua prole, e a prole da prole de sua prole teriam produzido milhões de ovos - valendo muito mais que cinco moedas. Os ovos saíram-lhe baratos." O juiz local era Nasrudin, e foi a quem Hakim apresentou a queixa. O dono do restaurante teve que ir também, para que pudesse se defender. Nessa época, Nasrudin resolvia os casos em casa, pois dizia que: -"Na vida, a Justiça sempre aparece". Assim que ouviu ambos os argumentos, Nasrudin cozinhou um punhado de milho. Então, deixou que esfriasse um pouco e, colherada por colherada, plantou-o no seu jardim. -"Que raio de coisa você está fazendo?", ambos perguntaram. -"Plantando milho, que desta maneira see multiplicará", disse Nasrudin. -"Desde quando alguma coisa que foi cozida poderia multiplicar-se desta forma?", bradou o dono do restaurante. -"Esta é a sentença deste tribunal", disse Nasrudin. -"A vocês dois, um bom dia."
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A Mulher Perfeita

Certa tarde, conta uma antiga história sufi, Nasrudin tomava chá e conversava com um amigo sobre a vida e o amor. -"Por que você nunca se casou, Nasrudinn?", perguntou o amigo. -"Bem", respondeu, Nasrudin, "para dizeer a verdade, passei toda a minha juventude a procurar a mulher perfeita. No Cairo conheci uma môça linda e inteligente, com olhos que pareciam olivas pretas, mas ela não era muito cortês. Depois, em Bagdá, conheci uma mulher de alma generosa e amiga, mas não tínhamos muito interesses em comum. Muitas mulheres passaram pela minha vida, mas em cada uma delas faltava alguma coisa, ou alguma coisa estava demais. então, um dia, eu a conheci. Era linda, inteligente, generosa e bem- educada. Tínhamos tudo em comum. Na verdade, ela era perfeita". -"E então", replicou o amigo de Nasrudiin, "o que aconteceu? Por que você não se casou com ela?" Pensativo, Nasrudin sorveu mais um gole de chá e concluiu: -"Infelizmente, parece que ela estava aa procura do homem perfeito."
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Estou fazendo algo

Ouvi falar que um motorista, dirigindo por uma estrada, viu o prédio de uma escola em chamas. O professor desta pequena escola naquela cidadezinha era Mulla Nasrudin. Ele estava sentado embaixo de uma árvore. O motorista o chamou: -"O que você está fazendo aí? A escola está pegando fogo!" Mulla Nasrudin disse: - "Eu sei disso." O motorista ficou muito agitado. Ele disse: -"Então por que você não está fazendo nada?" Mulla Nasrudin disse: -"Desde que começou tenho rezado para chover. Estou fazendo algo."
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Não importa fingir-se de tolo


Todos os dias Nasrudin ia esmolar na feira, e as pessoas adoravam vê-lo fazendo o papel de tolo, com o seguinte truque: mostravam duas moedas, uma valendo dez vezes mais que a outra. Nasrudin sempre escolhia a menor. A história correu pelo condado. Dia após dia, grupos de homens e mulheres mostravam as duas moedas, e Nastudin sempre ficava com a menor. Até que apareceu um senhor generoso, cansado de ver Nasrudin sendo ridicularizado daquela maneira. Chamando-o a um canto da praça, disse: - Sempre que lhe oferecerem duas moedas, escolha a maior. Assim terá mais dinheiro e não será considerado idiota pelos outros. - O senhor parece ter razão - respondeu Nasrudin. Mas se eu escolher a moeda maior, as pessoas vão deixar de me oferecer dinheiro, para provar que sou mais idiota que elas. O senhor não sabe quanto dinheiro já ganhei, usando este truque. "Não há nada de errado em se passar por tolo, se na verdade o que você está fazendo é inteligente".
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Como Nasrudin criou a verdade

"Estas leis não tornam melhores as pessoas", disse Nasrudin ao Rei; "elas devem praticar certas coisas de forma a sintonizarem-se com a verdade interior, que se assemelha apenas levemente à verdade aparente." O Rei decidiu que poderia fazer que as pessoas observassem a verdade – e o faria. Ele poderia fazê-las praticar a autenticidade. O acesso a sua cidade era feito por uma ponte, sobre a qual o Rei ordenou que fosse construída uma forca. Quando os portões foram abertos ao alvorecer do dia seguinte, o Capitão da Guarda estava postado à frente de um pelotão para averiguar todos os que ali entrassem. Um édito foi proclamado: "Todos serão interrogados. Aquele que falar a verdade terá seu ingresso permitido. Se mentir, será enforcado." Nasrudin deu um passo à frente. "Aonde vai?" "Estou a caminho da forca", respondeu Nasrudin calmamente. "Não acreditamos em você!" "Muito bem, se estiver mentindo, enforquem-me!" "Mas se o enforcarmos por mentir, faremos com que aquilo que disse seja verdade!" "Isso mesmo: agora sabem o que é a verdade: a sua verdade!"
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